qua., 29 de dezembro de 202115 minutos lidosFather Hans Buob

II Domingo do Tempo do Natal

Homilias bíblicas sobre os Evangelhos Dominicais no ano litúrgico C

Passagens bíblicas


João 1, 1-5. 9-14

No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto de Deus. Tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez. N’Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. E a luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.

[O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem. Estava no mundo e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não O reconheceu. Veio para o que era seu, mas os seus não O receberam. Mas a todos aqueles que O receberam e acreditaram no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. Estes não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus. E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós. Nós vimos a sua glória, a glória que Lhe vem do Pai com Filho Unigénito, cheio de graça e de verdade.

Homilias bíblicas


“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus.” (Vers. 1)

O prólogo do Evangelho de S. João é algo bastante poderoso e contém uma teologia profunda. É por isso que vale a pena dar uma olhada mais de perto – mesmo que nem sempre seja fácil.

As três primeiras declarações do prólogo descrevem o eterno Ser divino do Logos. A frase “No princípio era o Verbo” deve ser entendida como uma referência à criação no Antigo Testamento em Gn 1,1: “No princípio, Deus criou o céu e a terra.”  O Logos de quem João escreve aqui é Cristo. Ele é a Palavra através da qual Deus tudo criou, como então diz no versículo 3: “Tudo foi feito por ele, e sem ele nada foi feito.”  Entretanto, este Logos transcende o discurso de Deus na manhã da criação, pois o Verbo se fez carne numa hora histórica: o próprio Jesus Cristo é esta Palavra, cuja existência já estava presente anteriormente ao mundo, ou seja, na eternidade divina. Portanto, embora a palavra "princípio" seja usada em ambos os casos, há uma diferença decisiva: aqui, no Evangelho, não se trata do começo da existência do mundo criado na criação, mas da pré-existência do Logos antes de toda a criação. O que já existia no princípio tem prioridade sobre toda a criação, como S. Paulo também o expressa.

O Logos não foi criado, mas "Ele era", ou seja, ele já existia absoluta, intemporal e eternamente na criação. É por isso que Jesus também pode dizer em Jo 8,58: “antes que Abraão fosse, Eu sou.”  Este "Eu sou" expressa a presença atemporal de Jesus. Ele sempre foi, desde a eternidade, e não foi criado. Assim, a frase "no princípio era o Verbo" denota aqui nada mais do que o Ser eterno e infinito. João enfatiza em louvor ao Cristo encarnado que sem o corpo de carne Ele já existia no início, ou seja, antes da criação. Ele não se tornou, mas estava com Deus desde a eternidade, assim como uma pessoa está com outra pessoa. E ele era Deus.

Olhando para o início da criação ("No princípio Deus criou o céu e a terra"), João mostra a origem eterna e divina do Salvador e Revelador que estava com o Pai e vem dali: “Agora, pois, Pai, glorifica-me junto de Ti, concedendo-Me a glória que tive junto de Ti, antes que o mundo fosse criado”! (Jo 17,5) 

E somente deste conhecimento de Sua eternidade, do conhecimento direto, é que Ele nos pode trazer um testemunho totalmente válido de revelação. Se Jesus, o Verbo, não tivesse estado com o Pai desde a eternidade, Ele não poderia fazê-lo, porque não conheceria o Pai plenamente. 

É por isso que estas frases curtas e concisas do Evangelho de S. João são muito importantes. Esta pré-história também revela na sua origem a natureza de Jesus Cristo. Na sua natureza reconhecemos, ao mesmo tempo, a autoridade deste Cristo terreno.

É por isso que a segunda declaração "o Verbo estava com Deus" também fala imediatamente da comunhão pessoal do Logos com o Pai, porque diz: "e o Logos estava com Deus". Isto refere-se à estreita união com o Pai, tanto em pensamento quanto em vontade e ação. 

Jesus, o Filho de Deus, revela então esta completa unidade com o Pai, uma e outra vez na sua vida: “O meu alimento é fazer a vontade d'Aquele que me enviou”. (Jo 4,34) Na Oração Sacerdotal, Jesus fala da glória que Ele tinha com o Pai antes que o mundo fosse. Esta glória reside precisamente na proximidade de Deus, ou seja, na comunhão de vida com Ele, que lhe foi dada por amor do Pai.

No prólogo do Evangelho de S. João, é expresso o ser eterno do Logos. A divindade de Jesus, que ainda hoje é posta em dúvida e atacada repetidamente, é aqui claramente expressa. Mas o Logos, que participa da glória do Pai, na vida de Deus, é o pré-requisito básico para toda a Boa Nova.

A frase "o Verbo estava com Deus" diz muito mais do que frases comparáveis, como no Livro dos Provérbios: "A sabedoria que estava lá na criação...". Isto é algo diferente do Logos, que realmente estava lá antes da criação, e em comunhão pessoal com Deus, vivendo assim em Deus e de Deus. Portanto, não é apenas uma parceria ativa – algo feito com este Deus – mas é um vínculo pessoal, de modo que esta união – ele estava com Deus – também pode ser expressa um com o outro. 

O "com Deus" deve ser entendido a partir de nossa perspectiva, da perspectiva do mundo. "O Pai está em mim e eu nele", expressa a comunhão íntima do Logos com o Pai, que está fundamentado na existência antes da criação e existe verdadeiramente na totalidade com o Pai desde a eternidade. Em Jo 1:18, S. João reúne ambos com as palavras: "que está no seio do Pai".

O clímax é agora a terceira parte do primeiro verso: "e o Verbo era Deus". Traduzido literalmente, ele diz: "E Deus era o Logos". João fala aqui de o Logos ser o próprio Deus: "E Deus era o Logos". Este "theos" (Deus) que precede esta frase no grego não substitui o Logos, o já mencionado "ho theos". Isto se refere ao Pai. Portanto, não se trata simplesmente de substituir o Pai pelo Filho, mas agora se trata da natureza de Deus. Deus era o Logos. O Logos é tanto Deus quanto o Pai, com o qual ele está em comunhão de vida. Eles são duas pessoas, mas um só Ser. 

Assim, a palavra "theos" denota o fato de que o Logos e o Pai são um único ser comum. Esta plenitude do ser divino é o pré-requisito básico e garante que Jesus é tanto Deus quanto o Pai e, portanto, tem o poder total de revelação e salvação. Esta afirmação está relacionada à atividade do Logos no mundo, ou seja, à sua função de vida e luz para os seres humanos – ele é "a luz dos homens" (Jo 1:4b) – mas também à sua comunicação de graça após a Encarnação.

“Ele estava no princípio junto de Deus” (Vers 2)

Após a declaração anterior sobre a natureza do Logos, João retoma a frase anterior: O Logos estava no início com Deus. Desta forma, ele expressa o ponto de partida do caminho de salvação de Jesus. Ele estava com o Pai e partiu do Pai para retornar ao Pai, como se diz noutro lugar. A sua origem está com Deus antes de todos os tempos. Isto determina a sua natureza, a sua dignidade e a sua autoridade.

“Tudo foi feito por Ele, e sem Ele nada do que foi feito se fez.” (Vers 3)

João dá agora o próximo passo. O Logos, Cristo, está envolvido na criação. Como Cristo está envolvido não é descrito, mas apenas o próprio facto é relatado. Todas as coisas passaram por Ele, e sem Ele não houve uma única coisa que tenha chegado a ser. Isto deixa claro que em toda a criação, tanto no mundo espiritual quanto no material, absolutamente nada surgiu além do Verbo, isto é, sem o Verbo. Ou seja, sem Cristo.

As primeiras palavras "foi feito", que são sobre a criação, estão no tempo verbal aoristo da língua grega, expressando que se trata de um “tornar-se”, um acontecimento, único e absoluto. A criação e o devir do homem foram, cada um, um ato de criação. Algo único pode ser determinado precisamente desde a sua origem. Mas de seguida ("e sem Ele nada foi feito", ou seja, o que já foi criado), o tempo já é o pretérito perfeito, ou seja, para sempre. Através do Verbo, portanto, algo único é criado primeiro, mas tudo o que é criado permanentemente foi feito através do Verbo. Todas as áreas da criação espiritual, bem como a criação material, devem o seu devir ao Logos.

Os três primeiros versos ainda não são sobre o homem, mas sobre toda a criação. Assim, a afirmação " sem ele nada foi feito" enfatiza um significado abrangente do Logos na criação. Assim como o Logos assume o papel único de revelador e doador de vida para a redenção, assim também nada existe na criação sem Ele. É através de Cristo que toda a redenção e toda a criação acontecem. João deixa claro que o Logos não é uma mera expressão do poder criativo de Deus, ou seja, apenas um aspecto do seu poder criador, mas uma pessoa. Estas declarações sobre o Logos querem mostrar e louvar a grandeza única da Palavra de Deus feita carne. João antecipa isto antes de dizer no versículo 14: “E o Verbo fez-se carne”, para que saibamos quem se fez carne em primeiro lugar: o Cristo, sem o qual não há salvação e através de quem tudo e cada coisa se tornou.

“N’Ele estava a vida, e a vida era a luz dos homens.” (Vers 4)

Agora é uma questão de relacionamento do Logos com o mundo dos homens. O versículo 9 diz então: “era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.” Isto enfatiza ainda mais o significado do Logos. Jesus é esta verdadeira luz que ilumina todo o ser humano. Afinal, em João 8:12 Jesus diz: "aquele que me segue (...) terá a luz da vida". Portanto, é a vida que se torna leve e a luz a força da vida. As palavras "vida" e "luz" simbolizam assim a plenitude de uma vida significativa, transparente e cheia de luz.

Para entender este trabalho do Logos sobre o ser humano como luz, também podemos olhar para os Salmos ou para Job. Ali, a "luz da vida" significa que o homem desfruta da luz do sol. Mas como esta vida é dada por Deus e vivida no rosto de Deus, assume um significado muito mais profundo do que, por exemplo, no Sal 27,1: "O SENHOR é minha luz e minha salvação, a quem temerei? O SENHOR é o protetor da minha vida, de quem terei medo?", no Sal 36,10: "porque em vós está a fonte da vida, e é na vossa luz que vemos a luz" ou em Sab 7,26: “A sabedoria é uma efusão da luz eterna, um espelho sem mancha da atividade de Deus, e uma imagem de sua bondade."  Enquanto aqui a sabedoria é referida como um reflexo da luz eterna, em Sab 7:10 a luz da sabedoria é até preferida à luz criada: “Eu amei-a mais do que a saúde e a beleza, e gozei dela mais do que da claridade do sol, porque a claridade que dela emana jamais se extingue.”

Dois pensamentos são aqui importantes: em primeiro lugar, o novo poder criador e vivificador da Sabedoria, e em segundo lugar, a sua obra nas almas, de geração em geração. Poder-se-ia dizer: este é o sentido da vida. Uma pessoa que não aceita Cristo e vive de forma egoísta ou ateia, sente falta do sentido da sua vida. Essa pessoa não sabe de onde vem nem para onde vai. Para ela, tudo é casualidade. De que vale tudo o que ela faz, exceto desfrutar brevemente e depois morrer. Não há luz nem significado, nada que satisfaça o anseio mais íntimo do homem pelo infinito e pela eternidade. Mas a realização deste desejo mais íntimo do homem é a vida que o Logos dá. Ele mesmo é a vida e a luz do homem. Ele preenche o homem com a sua vida de essência espiritual-divina. É isto que distingue o ser humano do resto da criação, dos animais e da criação inorgânica.

Esta vida consiste, antes de tudo, no reconhecimento da nossa natureza divina, à imagem de Deus. O Logos é vida para nós. Ele dá-nos a verdadeira vida que ilumina todo o ser humano. E esta vida consiste, em segundo lugar, na bem-aventurança da ligação com Deus, que está em nós quando estamos completamente ligados a Cristo e, portanto, a Deus. Então ainda podemos ser felizes mesmo em sofrimento e experimentar a mais profunda felicidade mesmo na hora da morte, como os mártires, por exemplo. Eles receberam esta bênção de estarem unidos a Deus. Em terceiro lugar, esta vida significa a santidade da conversão. No Logos estava esse poder divino da vida em toda a sua plenitude. Em Cristo toda essa plenitude de vida e luz é como uma fonte inesgotável alimentada pelas profundezas da corrente divina da vida. João 5:26 expressa algo semelhante: "Pois como o Pai tem a vida em si mesmo, assim também deu ao Filho ter a vida em si mesmo." Ao Logos cabe a tarefa de comunicar esta vida aos homens. Ele tem toda a plenitude da vida. Ele é a fonte inesgotável desta corrente divina da vida e Ele deve comunicar-nos esta corrente da vida. Ele torna-se a fonte de vida para as pessoas e o doador da luz divina, através da comunhão com Cristo, através da oração, através dos sacramentos, etc. Cristo assumiu a função salvífica para o homem desde a criação e quis realizá-la por todas as gerações. Ele tornou-se homem para nos redimir e para nos comunicar esta plenitude de salvação.

O versículo 4 olha, por assim dizer, para a manhã da criação e descreve a ordem de criação na qual esta tarefa recai sobre o Logos, Cristo. Isto é então expresso novamente no versículo 9, recorrendo ao tempo verbal presente: "a verdadeira luz que (...) ilumina todo homem". Esta frase está no presente. Ele é a verdadeira luz que ilumina. Assim como nele era divina a vida eterna sem limitação temporal, assim também no plano de Deus ele sempre foi, e para sempre será, a luz dos homens. Este Logos é uma pessoa divina que se tornou homem em Jesus Cristo para cumprir a sua tarefa junto às pessoas que caíram no pecado e na escuridão.

Quando sentimos estas conexões na sua profundidade, quando sentimos quem este Cristo realmente é, então percebemos quem se tornou homem e visível para nós, quem se humilhou totalmente por nós: o que o Logos deveria ser para o homem de acordo com o plano de criação, Ele na verdade tornou-se em sua missão histórica para os crentes, ou seja, em sua encarnação. O versículo 4 ganha ainda mais clareza através da auto-revelação de Jesus em João. No Evangelho de João, Jesus se chama "a luz do mundo" e dá a si mesmo a possibilidade de ganhar esta luz da vida. Assim, nesta palavra de luz, podemos também ouvir a salvação final que Ele dá. Esta eficiência da luz do Logos vai desde a criação até a encarnação, e até à consumação final. Desde o início, ela realmente visa trazer o homem para casa, para a luz de Deus. Ele é a luz que ilumina todo o ser humano. O que se quer dizer é a graça da redenção, da salvação, da vida divina. Tudo o que é necessário para isso: a revelação, a doação de vida, mas também a expulsão das trevas do pecado e da culpa, a superação moral das obras e desejos malignos, tudo isso pertence à luz que o Logos espalha.

“A luz resplandece nas trevas, e as trevas não a compreenderam.” (Vers 5)

Neste verso, João usa de repente o tempo verbal presente. A luz brilha. Ela brilha nas trevas – ainda hoje, também. E então vem novamente o aoristo, tempo verbal passado: as trevas não se apoderaram dele, ou seja, na vinda histórica do Logos, em sua encarnação, as trevas não se apoderaram da luz. Ela não aproveitou a oportunidade única.

Para João, as trevas são, antes de tudo, o mundo que está longe de Deus. Mas são também uma imagem do poder sinistro que faz as próprias pessoas se tornarem escuras, cegas, como é indicado em João 9,39: «Jesus então disse:"Vim a este mundo para fazer uma discriminação: os que não veem vejam, e os que veem se tornem cegos.”»  Portanto, este versículo 5 é sobre este mundo cego de homens que caiu no mal. É sinônimo de filhos das trevas. Em 1 João 3:10 Jesus fala até mesmo dos filhos do diabo: “É nisso que se conhece quais são os filhos de Deus e quais os do demônio: todo o que não pratica a justiça não é de Deus, como também aquele que não ama o seu irmão.”  Esta afirmação também significa que o homem é obrigado a tomar uma decisão ativa própria, ou seja, a fé. Mas esta decisão não foi tomada naquele momento. Pensemos em todo o ambiente de Jesus. Eles não se agarraram quando a luz estava ao seu alcance. Assim, João escolheu e contrastou aqui, muito conscientemente, os tempos verbais presente e passado. Ele sabe da luminosidade nunca decrescente do Logos. A luz brilha nas trevas até hoje. A sua luminosidade continua. Mas ele também sabe da falta de compreensão e da rejeição das pessoas que fecharam as suas mentes a este trabalho de criação da salvação. Ele tem a aparência de Cristo diante de seus olhos, isto é, o que ele mesmo experimentou com Jesus: a rejeição de Jesus pelas pessoas e pelo mundo.

O evento naquele momento foi uma ocorrência única em um momento específico. Isso é o que o aoristo expressa na língua grega. Mas é também o único e o momento de cada pessoa através do tempo. Jesus não só foi rejeitado naquela época, mas é rejeitado repetidas vezes pelo homem. O comportamento das pessoas naquela época torna-se assim, hoje, um aviso para nós, no sentido de não nos bloquearmos contra a revelação salvífica de Cristo. É, portanto, uma palavra de exortação. A luz do Logos, que continua a resplandecer, quer por nós ser compreendida através da fé, que nos faz filhos de Deus, como então diz no versículo 12, e através do amor ativo, que permite que a luz penetre ainda mais no mundo escuro: “Todavia, eu vos escrevo agora um mandamento novo – verdadeiramente novo, nele como em vós, porque as trevas passam e já resplandece a verdadeira luz” (1 João 2:8).

“[O Verbo] era a verdadeira luz que, vindo ao mundo, ilumina todo homem.” (Vers 9)

Depois de olhar João Batista nos versículos 6-8, que o Evangelho de hoje pula, João retorna ao Logos. Ele foi a verdadeira luz que ilumina todas as pessoas que vêm a este mundo. Aqui, então, a afirmação da luz dos homens é mais uma vez enfatizada. A capacidade iluminadora do Logos é universal e necessária ao homem em todos os tempos, não apenas para o tempo de então. Só no Logos estava o poder de vida divino para o verdadeiro – o verdadeiro ser, totalmente humano, do homem. Só Ele era a verdadeira luz divina para cada ser humano. Foi Ele. Mas o que Ele era, Ele é e permanece.

No versículo 4, este "ele" ainda se referia à ordem da criação, ou seja, ao Logos antes de sua encarnação: "Nele havia vida". Agora, porém, a luz do Logos se refere ao reconhecimento e eleição do bem, à verdadeira luz que ilumina todo o ser humano para que ele reconheça e eleja o bem. Além disso, refere-se ao destino do homem e à sua atuação segundo a vontade de Deus, ao seu caminhar na luz, que então conduz, no final, à luz plena e à salvação plena de Deus. Neste sentido, o Logos era "a verdadeira luz" em oposição a uma falsa luz.

Esta "verdadeira luz" quer expressar, além disso, a realidade e a plenitude do ser de Deus. O Logos possui uma luminosidade incomparável decorrente de sua divindade, que pode e deve se provar em todo o homem que quer encontrar seu objetivo. Assim, Ele está também em contraste com todos os outros supostos portadores de luz.

“Estava no mundo e o mundo foi feito por ele, e o mundo não o reconheceu.” (vers 10)

Em vista deste versículo 10, a expressão "vindo ao mundo" do versículo 9 não deveria, na verdade, se referir ao homem, mas sim à luz. A luz veio ao mundo. Portanto, o evangelista aponta aqui para o evento da Encarnação. Ele diz então como a luz veio ao mundo no versículo 14: “E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.” O Logos se tornou carne.

Ele estava no mundo, ou seja, no habitat dos homens, próximo e acessível aos homens, para que eles pudessem apegar-se a Ele para sua salvação. Mas o mundo – ou seja, este espaço histórico-terreno no qual agora toda a humanidade se move – não o reconheceu. Esta é a afirmação destruidora deste verso.

“Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam.” (vers 11)

Aqui, mais uma vez, é descrita a relação do Logos com o homem e a triste ruptura que essa relação entre o Logos e o homem experimenta neste mundo. Eles não o recebem.

O uso da palavra "mundo" indica que a transição da ordem da criação para a história está sendo descrita. A história é um processo natural de desenvolvimento. Estamos no curso da história. Estamos fazendo história. Trata-se essencialmente da história humana e trata-se das ações e do comportamento do homem para sua salvação, ou desastre, na história. A ênfase é colocada aqui no fato sombrio de que o mundo não O reconheceu e, mais tarde, até mesmo que Seus próprios não O receberam. O mundo fechou-se assim de bom grado ao Logos que queria iluminá-lo e conduzi-lo à salvação, e com Ele rejeitou o próprio Deus. Este não reconhecimento é um comportamento profano pelo qual as pessoas se separam de Deus e se excluem de Sua esfera de vida. Poder-se-ia dizer também: o mundo não o reconheceu.

O doloroso fato de que o Logos encontrou rejeição no mundo é expresso ainda mais acentuadamente, quase paradoxalmente, neste versículo 11: Ele veio para o que era Seu, mas os que Lhe pertenciam não O receberam. Trata-se da vinda espiritual do Logos a este mundo humano sombrio, que, por assim dizer, fechou sua casa ao Logos que se aproximava. Surge aqui, novamente, o tempo verbal da língua grega, aoristo – "Veio para o que era seu" –, que expressa que o encontro entre o Logos e o mundo ocorreu na realidade histórica e se renova uma e outra vez; ou seja, Ele veio ao mundo em um momento histórico muito específico e foi rejeitado nesse momento histórico. Mas esse momento histórico ocorre repetidamente na vida de cada homem. Ele vem para o que é seu – também para mim! – e eu não o aceito. Isto acontece repetidamente. Neste verso, o mundo é chamado de "propriedade do Logos" porque Lhe pertence através da criação, pois tudo se fez através d’Ele. É ainda mais deprimente que os seus, que se fizeram através d’Ele em primeiro lugar, não o tenham recebido. Quando falamos aqui dos seus, nos referimos aos parentes mais próximos, aqueles que estão mais estreitamente ligados a Cristo, porque se tornaram através d’Ele e só podem existir n’Ele. Mas mesmo eles não O recebem. Assim, eles praticamente rejeitam suas próprias bases de existência. Eles rejeitam tudo o que Cristo nos quer dar: a luz, o sentido, a plenitude e a alegria, ou seja, em última análise, a realização de suas vidas.

Portanto, não devemos nos surpreender quando olhamos para o nosso mundo hoje e vemos quantas pessoas insatisfeitas e infelizes existem, todas elas apenas correndo e correndo para pegar qualquer coisa que lhes traga um pouco de luz e felicidade. Cristo é a plenitude. Ele fez todos os Seus, que O receberam, felizes. Isto é comprovado pelos testemunhos das pessoas, mesmo no paradoxo do martírio: a alegria em meio ao sofrimento. Isto só é possível se Jesus Cristo for verdadeiramente a plenitude de nossa vida.

“Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.” (vers. 12-13)

Ao fato deprimente de que o Logos encontrou incompreensão e rejeição das pessoas quando veio ao mundo, João contrapõe agora as pessoas que O aceitaram. A estes Ele lhes deu o poder de se tornarem filhos de Deus. Para João, a filiação em Deus é um dom divino que é dado aos batizados através do amor divino. A partir disto, naturalmente, surge a tarefa moral daqueles se provarem, então, como filhos de Deus, como escreve João em suas cartas.

A frase "deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus", na verdade, não se refere ao desenvolvimento moral, mas ao processo sobrenatural de se tornarem filhos pelo batismo. Através, e no batismo, me tornei um filho de Deus. O versículo 13 expressa então claramente que não nascemos da vontade da carne ou do homem, mas de Deus. João, na verdade, não diz: Torne-se o que você é! mas: Seja e mostre quem você se tornou através do batismo! O testemunho desta filiação em Deus está em primeiro plano.

João fala da aceitação do Logos na fé. A fé é a atitude básica necessária para receber a salvação. Crer no nome de Jesus deve significar acreditar e afirmar a pessoa de Jesus em toda a extensão de suas revelações. Por nome entende-se a pessoa inteira, toda sua missão, toda sua proclamação, toda sua revelação.

João deixa bem claro nestes dois versículos que não se torna um filho de Deus por nascimento natural, nem por um processo natural de se fazer homem, mas por um evento sobrenatural trazido apenas por Deus. A tríplice negação "não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus" (cf. versículos 12-13) expressa isto muito claramente. O evangelista aponta, assim, para uma obra indisponível e, em última análise, incompreensível do Espírito divino, através do qual esta geração de Deus teve lugar. No batismo, Deus foi gerado em nós. Através do Espírito, nos tornamos filhos de Deus. João enfatiza a origem sobrenatural dos filhos de Deus a fim de esclarecer sua separação do mundo e sua conexão com o Logos, o mediador da graça e da verdade divina. A procriação de Deus no batismo permanece um mistério e é um ato único de origem divina celestial. Portanto, o pretérito do aoristo é novamente usado: Que nascem de Deus.

“E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, e vimos sua glória, a glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade.” (vers. 14)

Com este último verso chegamos ao clímax do Evangelho de hoje. Mesmo tendo sido rejeitado pelo povo, o Logos já estava presente e ativo no mundo de forma espiritual, pois tudo foi criado através dele e tudo perdura nele. Mas agora o inconcebível acontece: ele vem até mesmo em carne e osso. Ele se torna homem e monta sua tenda entre os homens. E foi somente através desta encarnação que o Logos nos tornou capazes de compartilhar a filiação de Deus. “Todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça” (Jo 1:16)

Com a palavra grega "egeneto" (εγενετο - "Ele se fez"; "o Verbo se fez carne"), é indicada uma mudança no modo de ser do Logos. Ele se fez algo que não era antes. Antes, Ele estava na glória do Pai. Agora, Ele assume a humildade da existência humana. Antes, Ele estava com Deus. Agora, Ele coloca Sua tenda entre os homens e, na forma humana, isto é, na realidade plena da carne, para que quando retornar a seu Pai possa recuperar a glória do modo celestial de ser, como então é dito em João 17:5: “Agora, pois, Pai, glorifica-me junto de ti, concedendo-me a glória que tive junto de ti, antes que o mundo fosse criado.” Deus lhe restitui a glória que Ele tinha com o Pai antes que o mundo fosse. O Logos se tornando carne marca um ponto de viragem na história da salvação. Ela abre as últimas possibilidades de salvação para os seres humanos. O caminho do Salvador para baixo, se fazendo carne, e para cima, através da carne, até à glória celestial, se torna também um caminho para todos os que se unem a Ele na fé.

Mas por que João usa aqui a palavra "carne", e não – por exemplo –, a palavra "homem"? A palavra grega "sarks" expressa a plena humanidade de Jesus. Ele era totalmente humano. Pode ser que João já estivesse pensando no discurso do pão em Cafarnaum, onde Jesus proclama a seus ouvintes: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna; e eu o ressuscitarei no último dia.” (João 6:54). Possivelmente também poderia ser uma expressão de que o Logos não assumiu um corpo ilusório, mas um corpo realmente de carne e osso. "Ele armou uma tenda entre nós", como então é traduzido literalmente, expressa assim a realidade da Encarnação, mas aponta também que é apenas uma habitação temporária, porque uma tenda é derrubada novamente.

João fala então da "glória que o Filho único recebe do seu Pai, cheio de graça e de verdade". O que se quer dizer é a glória única, pois ela pertence ao Filho de Deus, a glória do único gerado do Pai. Também se poderia traduzir: A glória do único Filho de Deus gerado. O Logos traz a plenitude dos dons da graça para todos os crentes. Então a expressão "cheio de graça e verdade" ("charitos kai alepheias" – χαριτοσ και αληθεια) também se refere certamente ao Logos. Sua origem está provavelmente no hebraico: ali, esta lista tem sido muito comum desde o aparecimento de Deus no arbusto ardente: "heset va ehmet" – "graça e verdade", "misericórdia e compaixão". Assim, em Cristo, o Logos, encontramos graça e verdade, graça e misericórdia, misericórdia e fidelidade – todas estas são expressões para esta luz que ilumina nossa existência. Talvez João esteja também pensando na Transfiguração no Monte Tabor, quando fala da "glória do único Filho do Pai, cheio de graça e de verdade".

Ficou claro que este prólogo do Evangelho de João é incrivelmente importante do ponto de vista teológico. Mas, quando nos deparamos com ele e sentimos quem este Verbo realmente é; quem se fez carne e acampou entre nós; quem realmente se tornou homem nesta nova maneira de entrar na humilhação total para nos trazer para fora nesta glória do Pai, então podemos começar a nos maravilhar novamente. E então este mistério da Encarnação pode amanhecer em nós cada vez mais profundamente e, como São Francisco, ficamos maravilhados diante da Criança na manjedoura. ∎