ter., 23 de março de 20213 minutos lidosminicatNina S. Heereman, SSD

Domingo de Ramos - Ano B

Com o Domingo de Ramos, entramos na Semana Santa. Jesus chega a Jerusalém. Uma interpretação baseada na 1ª leitura e no Evangelho.

Passagens bíblicas


Leituras: Is 50,4-7; Fl 2,6-11

Salmo Responsorial: Sl 21

Evangelho: Marcos 11,1-10; 14,1-15,47

Minicat


No Domingo de Ramos nós adentramos a Semana Santa; isto é: do Domingo de Ramos ao Domingo de Páscoa nós acompanhamos Jesus desde Sua entrada em Jerusalém, passando por Sua crucificação e descida à mansão dos mortos, até Sua ressurreição. A partir do Domingo de Ramos, no entanto, tudo piora por ora. Jesus entra em Jerusalém, onde é inicialmente recebido como um rei, mas o mesmo povo que ainda agora exclama "Hosana!", bradará "Crucifica-o, crucifica-o!" na Sexta-Feira.

Em Roma, eu conheci uma mulher muçulmana que havia estudado o Alcorão, mas estava curiosa para saber em quê os cristãos acreditam. Uma amiga minha deu-lhe um bilhete para assistir a uma missa papal na Praça de São Pedro, no Domingo de Ramos. Ela teve um pouco de dificuldade em entrar na praça com o seu véu, mas acabou por conseguir. Levantou-se para o Evangelho como todos os outros e ouviu toda a história da paixão de Jesus, desde a Sua prisão até Sua morte. Ao ouvir, ficou comovida, começou a chorar, e o seu coração derreteu-se de compaixão por esse Jesus que ela não conhecia. De repente, olhou à sua direita e à esquerda e viu que os cristãos estavam ali sentados a mascar chiclete, a olhar para o ar, e a parecer pouco impressionados com essa história de sofrimento. Quando a encontramos depois e lhe perguntamos como tinha vivido a Santa Missa, ela disse: "Como vocês, cristãos, são insensíveis! Como podem ouvir esta história sem chorar! Isso é terrível!”

Espero que não sejamos tão insensíveis como aqueles fiéis na Praça de São Pedro, mas, se formos honestos, temos de admitir que, de fato, nos tornamos um pouco indiferentes, uma vez que parecemos estar tão familiarizados com a Paixão de Jesus. Sendo assim, nesta semana, ouçamos esses textos como se o fizéssemos pela primeira vez, e nos coloquemos no lugar de Jesus. Para nos ajudar, há dois textos do Antigo Testamento nas leituras do Domingo de Ramos, um do Livro de Isaías e o Salmo 21, ambos são profecias literais do sofrimento de Jesus.

No Livro de Isaías há quatro canções chamadas Cânticos do Servo, todas elas podem ser ouvidas em diferentes dias da Semana Santa. São sobre o Servo de Deus que será o próprio Cristo e que deve sofrer tudo o que aí é descrito a serviço do Pai. O cântico que ouvimos no Domingo de Ramos, Isaías 50,4 diz: "O Senhor Deus deu-me a língua de um discípulo para que eu saiba reconfortar pela palavra o que está abatido. Cada manhã ele desperta meus ouvidos para que escute como discípulo”. No período que antecedeu o Domingo de Ramos, ouvimos muitas vezes Jesus dizer: "Em verdade, não falei por mim mesmo, mas o Pai, que me enviou, ele mesmo me prescreveu o que devo dizer e o que devo ensinar." (Jo 12,49). O verdadeiro profeta é aquele que proclama apenas as palavras de Deus e não a sua própria mensagem. A mensagem de um homem não nos pode salvar. O que nos interessa é o que o Pai tem para nos dizer. Jesus proclamou-nos unicamente isso - o que levou a que as pessoas O quisessem matar. "E eu não relutei, não me esquivei" (Is 50,5). Isso expressa Jesus a dirigir-se voluntariamente à Sua morte. "Aos que me feriam, apresentei as espáduas, e as faces àqueles que me arrancavam a barba" (v.6). Jesus não foi simplesmente chicoteado, mas Ele próprio lhes deu as costas, e àqueles que lhe arrancaram a barba Ele também lhes apresentou a face. “Não desviei o rosto dos ultrajes e dos escarros” (v.6b). Quem já esteve no Oriente deve saber como as pessoas de lá podem cuspir. No filme "A Paixão", vê-se como cuspiram em Jesus. Uma mística, Anna Catharina Emmerich, relatou numa das suas visões que o cuspe deles até lhe caiu dentro da boca. "Mas o Senhor Deus vem em meu auxílio: eis por que não me senti desonrado" (v.7). Essa é a atitude interior de Jesus durante todo o Seu julgamento. "Enrijeci meu rosto como uma pedra, convicto de não ser desapontado." (v.7b). Jesus toma conscientemente sobre si estes sofrimentos, sabendo que o Pai que o absolve está próximo dele. As palavras de Jesus, por assim dizer, aos Seus inimigos: "O Senhor Deus vem em meu auxílio: quem ousaria condenar-me?"(v.9). Ninguém, nem Pilatos, nem nenhum supremo tribunal. Jesus é inteiramente inocente, e porque Ele é inocente, Ele sabe que ressuscitará da morte.  "Cairão em frangalhos como um manto velho; a traça os roerá." (v.9b). Qualquer pessoa que já teve a roupa corroída por traças sabe o que isso significa. Não resta nada. E é isso que vai acontecer aos inimigos de Deus que aqui se levantam contra Jesus no julgamento. Mas Jesus deseja-os e dá a Sua própria vida por aqueles que O matam (cf. Jo 3,17; 12,47). Leia o Salmo 21, medite sobre ele na Santa Missa. Ele profetiza literalmente o sofrimento que Jesus experimenta na cruz e será ouvido de novo na liturgia da Sexta-feira Santa. ∎