sex., 14 de maio de 20213 minutos lidosminicatNina S. Heereman, SSD

Aniversário da Igreja

Sem o Pentecostes, a Encarnação de Cristo dificilmente faria sentido.

Sem o Pentecostes, a Encarnação de Cristo dificilmente faria sentido. O envio do Espírito Santo, que marca o nascimento da Igreja, revela a própria razão da salvação: Deus quer unir toda a humanidade em uma única família, derramando seu Espírito sobre ela. A Igreja foi o plano de Deus para a humanidade desde antes da criação do mundo (cf. Efésios 1). Desde todas as origens, o desejo e plano de Deus foi criar uma família.

Para entender Pentecostes, é preciso olhar o primeiro capítulo do Livro de Gênesis. Se você conhece um pouco sobre textos do antigo Oriente Médio, verá que Gênesis 1 é escrito numa linguagem de um texto sobre a construção de um templo. Ou seja, a Criação é descrita como Deus construindo um templo gigante, tão grande quanto todos os cosmos, no qual o homem foi colocado como sacerdote (cf. Gênesis 1, 26-27). Ser sacerdote significa ser mediador entre Deus e o cosmo. Está escrito que Deus criou animais, plantas, e todos os tipos de seres vivos, mas somente o homem foi criado à imagem (literalmente, estátua) de Deus, e, assim, era o mediador entre Deus e a Criação. Gênesis 2, apesar de escrito em outro tempo e forma literários, é baseado numa teologia similar. A Criação é entendida como a construção do templo, e somente ao homem é soprado o Espírito de Vida de Deus (cf. Gênesis 2,7).

Todos sabem o que aconteceu depois: nesse templo de criação, pelo pecado, a íntima relação entre o homem e Deus foi quebrada (cf. Gên 3). Deus retirou-se do jardim. Homem e mulher tornaram-se inimigos entre si. Irmãos tornaram-se inimigos entre si. Nações tornaram-se inimigas entre si. Esse acúmulo de pecados chegou a um fim na construção da Torre de Babel, pela qual todos os povos finalmente falaram em línguas diferentes e já não compreendiam uns aos outros.

Nesse momento, Deus iniciou sua obra de redenção escolhendo Abraão com a promessa: “todas as famílias da terra serão benditas em ti” (Gên 12,3). Abraão, e, portanto, o Judaísmo, são escolhidos por todos - uma eleição é sempre para todos. Aqui, Deus começou a preparar com Israel aquilo que acabou por encontrar sua conclusão em Jesus, o estabelecimento de sua família.

Para realizar isso, Ele fez um pacto com o povo de Israel no Monte Sinai. Como bem se conhece, Deus veio ao seu povo na montanha em uma tempestade com trovões e fogo, como numa teofania (do Grego antigo θεός theos "Deus"; φαίνεσθαι phainestha "mostrar a si mesmo", que significa literalmente “aparição de um deus”, ou seja, a manifestação de Deus no mundo ou natureza humana). Esse evento foi tão chocante que as pessoas nem se atreveram a tocar o pé da montanha porque isso levaria à morte. Então, lá Deus fez o pacto com Israel e mandou construir a Tenda da Revelação. Assim, pela primeira vez desde a Queda, Deus novamente fixou residência no coração de seu povo (cf. Êxodo 19-24) e marchou com ele até a Terra Prometida (Números-Deuteronômio). Foi lá que mais tarde Salomão construiu-Lhe um templo e Deus habitou novamente no coração de seu povo (1 Reis 8).

Mas o que aconteceu depois? Os reis de Israel pecaram e tudo se partiu novamente (1 Reis, 8 - 2 Reis 25). Os Judeus compreenderam: tudo o que está acontecendo é apenas uma prefiguração do que está por vir. Deus decidiu tomar sobre o Seu próprio Corpo aquilo que o impedia permanentemente de habitar entre nós, o pecado (1 Pedro 2,24). É isso o que celebramos na Páscoa: Jesus tomou o pecado do mundo sobre si mesmo na Sexta-Feira Santa, morreu por nós na cruz, levou aquele pecado com ele à morte, e então ressuscitou ao terceiro dia. Desse modo, Ele criou o mundo de novo.

Depois disso, Ele ascendeu aos céus do Monte das Oliveiras - 10 dias depois de Pentecostes - dizendo de antemão: "Eu vos mandarei o Prometido de meu Pai; entretanto, permanecei na cidade, até que sejais revestidos da força do alto” (Lucas 24,49). De acordo com a tradição, o Cenáculo é onde os discípulos esperaram por nove dias a vinda desse poder dos céus. No dia de Pentecostes, lá estavam os discípulos reunidos com 120 pessoas. Esse número simbólico (120=12x10) representa os povos de Israel (12) em comunhão com a plenitude das nações (10 simboliza essa plenitude). Nessa comunidade, a Igreja compreende claramente: a família de Deus é composta por todos os povos da terra. Quando todos estão reunidos, Jesus envia do Pai o Espírito Santo, que veio como línguas de fogo, assentando-se sobre cada um deles (cf. Atos 2, 1-4).

No Monte Sinai, Deus veio em uma tempestade e ninguém podia tocar a montanha. Ele se instalou na Tenda da Revelação. Mas aqui, Ele toma sua morada no coração de cada homem, e o que Jesus diz no Evangelho é cumprido: "Respondeu-lhe Jesus: Se alguém me ama, guardará a minha palavra e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos nossa morada.” E, antes disso, "E eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclito, para que fique eternamente convosco." (João 14,23; 14,16; Evangelho do Domingo de Pentecostes, Ano C). Jesus diz aqui, de certa forma, “O Espírito Santo fará de vocês o templo de Deus. Desde o dia de Pentecostes, todos que guardarem os meus mandamentos se tornarão templo de Deus, e nós, a Trindade, o Pai, o Filho, e o Espírito Santo, o eterno Deus que criou a humanidade e o universo, tomará morada nos seus corações.” Isso é o Pentecostes!

É por isso que Paulo diz mais tarde na sua Carta aos Romanos: "Se o Espírito daquele que ressuscitou Jesus dos mortos habita em vós, ele, que ressuscitou Jesus Cristo dos mortos, também dará a vida aos vossos corpos mortais, pelo seu Espírito que habita em vós." (Rom 8,11; Segunda Leitura do Domingo de Pentecostes, Ano C). Em outras palavras, desde o momento em que recebemos o Espírito Santo no Batismo, especialmente no Crisma, e em cada sacramento que recebemos, nós recebemos mais e mais do Espírito Santo, e nossos corpos mortais são transformados mais e mais em Espírito que dá vida. E é nesse Espírito que nós agora clamamos, “Abba, Pai!”. É apenas porque o Espírito Santo, que é o próprio Deus, habita em nós, que podemos verdadeira e realmente dizer a Deus: “Abba, Pai!”. E é isso o que celebramos em Pentecostes! Porque somos nascidos de novo, como filhos de Deus e como a Família de Deus.

A missão de Deus para a Igreja é levar a mensagem de Jesus morrendo pelos nossos pecados e a Ressurreição de Jesus para o mundo inteiro, para que todas as pessoas recebam a Boa Notícia de que Jesus morreu por amor a elas, que seus pecados estão perdoados, e a elas é prometido o Espírito Santo, e são chamadas a se tornarem filhas de Deus, e a viver eternamente. ∎