sex., 4 de setembro de 202010 minutos lidosBernhard Meuser

O que é Querigma?

Kerygma (também conhecido como anúncio) refere-se ao sermão cristão. Neste artigo irá aprender de onde vem e como é usada na Bíblia.

Ⓒ Photo by Braden Collum on Unsplash.

Definição


Proclamação / Querigma

“Proclamação” é uma das mais importantes tarefas da Igreja. A palavra grega “kerygma”, que já é usada no Novo Testamento para o anúncio público de uma verdade ou mensagem recebida de Deus, de fato significa “proclamação”; ela era usada para a proclamação em voz alta de algo extremamente importante, como os imperadores da antiguidade muitas vezes ordenavam nas grandes praças das cidades. O conteúdo da proclamação, e o começo de toda existência cristã, é: “Jesus Cristo, o Senhor” (2Cor 4, 5). Papa Francisco descreve a primeira proclamação, com a qual tudo começa, com as palavras: “Jesus Cristo ama-te, deu a sua vida para te salvar, e agora vive contigo todos os dias para te iluminar, fortalecer, libertar” (Evangelii Gaudium 164).

O que a Bíblia diz?


A Proclamação começa com o próprio Deus, que já no Antigo Testamento concede mensagens às pessoas que não poderiam tê-las por si mesmas. Encontramos a cena primária de uma proclamação no início do Evangelho de Lucas (Lc 1, 26 ss.). Um anjo de Deus visita uma humilde jovem – com uma mensagem completamente incrível do alto. Maria tem fé e está totalmente pronta para aceitar o que está sendo proclamado. João Batista, o último profeta do Antigo Testamento, anuncia a chegada de alguém a quem ele não é nem digno de desamarrar as sandálias (Jo 1, 27). O próprio Jesus é um pregador; Ele inicia seu ministério público com uma aparição no templo de Nazaré, quando se refere a uma profecia de Isaías (“O Espírito do Senhor está sobre mim”). Depois, Jesus também requer que seus discípulos o confessem, para que Pedro proclame o que todos os cristãos de todos os séculos proclamarão no momento em que se tornarem cristãos: “Tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo!” (Mt 16, 16). A primeira aparição pública de Pedro proclama isso (At 2, 14.36-38). Nem o aprisionamento afasta Pedro e João disso (At 4, 23 ss.). Na Primeira Epístola de Pedro, a “proclamação” é esperada de cada cristão: “Estai sempre prontos a responder para vossa defesa a todo aquele que vos pedir a razão de vossa esperança” (1Pd 3, 15). Mas a tarefa de proclamar é confiada aos apóstolos (e seus sucessores) de uma forma especial: “Ai de mim”, diz Paulo em 1Cor 9, 16, “se eu não anunciar o Evangelho!”.

Uma pequena catequese do YOUCAT:


Maratona por Jesus

Fidípides é o nome de um homem que fez história em 490 a.C. A lenda diz ele que foi o mensageiro, que depois da batalha de Maratona, trouxe aos cidadãos de Atenas uma mensagem muito importante. Durante dois dias, correu sem parar, até cair morto em Atenas após pronunciar as palavras: “Ganhamos!”. O queniano Eliud Kipchoge levou 1h59m40s para estabelecer seu recorde mundial em 2019 para distância quase idêntica - e segue vivo. Se o queniano fosse um corredor de maratona normal, sua carreira só teria trazido uma mensagem ao mundo: “Ganhei!”. Más, Eliud Kipchoge não é o tipo de pessoa que toca o tambor em seu peito depois das vitórias e mostra seu corpo de atleta para a adoração através das mídias. Ele é um católico devoto, que participa da Santa Missa regularmente e reza o rosário. Depois de seu recorde mundial, ele se ajoelhou, inclinou-se e fez o sinal da cruz em agradecimento.

Para mim, Eliud Kipchoge é mais que um plusmarquista mundial de maratona - por isso o admiro; ele é um “querigmático”, um arauto de Jesus - por isso que o amo. Sua milagrosa carreira de Viena serviu para entregar uma mensagem de vitória histórica mundial que afeta todas as pessoas e todas as vidas; é: já não temos que nos salvar a nós mesmos. Somos ternamente amados, salvos e redimidos por Jesus Cristo. Ele é nosso Senhor. A Ele se deve “a glória pelos séculos dos séculos” (Fl 4,20). Eliud Kipchoge entendeu o que significa ser cristão: “dedicado a anunciar o evangelho, cumprindo bem com seu trabalho! (2Tm 4,5).

Um dia Deus não perguntará a Eliud Kipchoge como conseguiu bater as duas horas de seu recorde mundial. Mas perguntará sobre a essência de sua vida: O que você fez? Por que estava ali? Eliud Kipchoge pode ser um dos afortunados que pode dizer: Veja, meu Senhor, passei minha vida buscando fazer o que fez Paulo: “Lutei a boa batalha, completei o curso, permaneci fiel”. Além disso, pode ser que tenha corrido muito bem, mas eu estava rezando a ti, não a mim.

Eliud Kipchoge. Ⓒ Denis Barthel.

Quando o cristianismo estava em seus inícios…

Na Igreja primitiva ainda não se distinguia claramente entre duas realidades, entre “Querigma” e “Didaqué”, ou seja, entre “anúncio” e “ensinamento”. As Mães e Pais da Igreja não queriam começar com o ensinamento (a reflexão racional da fé) até que tivesse feito um clic com um candidato ao batismo, ou seja, até a mensagem de todas as mensagens - o “Querigma” - tivesse chegado a uma pessoa e ela se tivesse apropriado realmente da memsagem. Eles pensaram: não tem sentido falar de fé, dar catequese, fazer teologia se não existe esta fé inicial. O padre Raniero Cantalamessa, o pregador da Casa Pontifícia, o pensa ainda hoje. A teologia é, obviamente, “muito relevante... mas não para alguém que primeiro tem que escutar o Querigma e logo tem que ser ensinado catequisticamente. Do contrário, é como um discurso sobre a didática da natação sem nunca ter estado na água”.

Como se chega a este contato vivo com a realidade de Deus? Certamente através de estímulos externos. Mas, em última instância, através da graça. YOUCAT 338: “Chamamos de graça o acercamento gratuito e amoroso de Deus a nós, a sua bondade que nos ajuda, a força para a vida que procede d’Ele”. É Deus quem faz algo no coração do homem; é quem desperta a fé. YOUCAT 21 DIZ: “A fé é um puro dom de Deus, que recebemos, se o pedimos ardentemente”. O momento preciso em que isso ocorre em uma pessoa se estuda melhor com o próprio Jesus, que foi um Mestre Evangelista. Seja com a mulher samaritana junto ao poço (Jo 4) ou com a mulher cananéia (Mt 15) - de repente acontece um estalo e a gente se afasta de si mesmo através da força de um encontro de grande confiança em Jesus. Sucede uma forma de curiosidade, através da qual uma porta se abre a um mundo fascinante, a segredos sempre novos de amor, que a pessoa nem mesmo poderá afrontar em toda a sua vida.

É preciso repartir a sopa voluntariamente?

Esta é uma etapa no caminho de converter-se em cristão que ainda existe. Um dia um amigo, Maximiliano Oettingen, contou como foi para ele o despertar para a fé quando seu cristianismo estava ainda em sua fase infantil. Tinha ouvido falar muito de Deus e da fé em todo o seu entorno: sua família, sua escola. Mas isso apenas girou em torno dele, não o penetrou, permaneceu no seu externo. O Querigma ainda não tinha irrompido em sua vida. Certa vez viu dois jovens que tinham oferecido sua vida a Jesus e logo ele se pôs a escutá-los: “Estava fascinado - e desiludido. Porque me dei conta, imediatamente, de que Jesus não era de nenhuma forma o Senhor da minha vida”.

Queria colocar toda a confiança em Jesus, que o atraia poderosamente; más ao mesmo tempo o invadia um medo profundo: “Se não me entediasse imediatamente, se não me entediasse a mim mesmo, se me envolvesse 100% com Jesus... Não teria que repartir sopa aos fins de semana com uma expressão sem emoção? Não teria que me casar com uma mulher velha, feia e provavelmente desdentada?” Um amigo lhe deu a pista decisiva: “Maxi, tudo está muito bem. Esse conflito interno... o que está experimentando é normal. O importante é que agora comece a confessar com sua boca que confia em Jesus, que sua vontade pode se fazer em sua vida. E um dia será capaz de acreditar n’Ele com seu coração”. E assim aconteceu. Escutou a mensagem e se converteu em seu arauto e testemunha. Um leigo comum, casado e com vários filhos. Pronto para percorrer um longo caminho para levar a Boa Nova a gente sempre nova. Pronto para correr a maratona de Jesus.

Os verdadeiros campeões de evagelização

Não somente Atenas, mas também a Igreja teve e tem “mensageiros”, ou seja, mensageiros profissionais das notícias. A palavra grega para isso é “apóstolos”. É engraçado imaginar que pessoas de tanto peso como os bispos deveriam ser antes de tudo mensageiros de ágeis de Jesus, rápidos, persistentes e confiáveis, impulsionados por uma mensagem que deve ser entregada imediata e irrenunciavelmente. Em YOUCAT 144 lemos: “Os bispos têm que ser antes de tudo ➔ APÓSTOLOS, testemunhas fiéis de Jesus, que os chamou pessoalmente a seu lado e os enviou. Deste modo levam Cristo aos homens e os homens a Cristo. Isso se realiza mediante a predicação, a celebração dos sacramentos e o governo da Igreja”. Existiram e existem maravilhosos bispos, mas infelizmente também aqueles que abusaram de seu cargo e mais desviaram do que aproximaram as pessoas de sua fé. Porque o Querigma não se transmite tanto com palavras, mas com uma vida que brilhe desde o interior. “A conformação entre vida e testemunho” diz YOUCAT 347, “é a primeira condição para o anúncio do Evangelho”.

É por isso que você deve meditar sobre este maravilhoso ícone russo. Jesus subiu ao céu. Agora a Igreja está em primeiro plano. Poderia estender-se de uma maneira desagradável e masculina: Nós fizemos! Podemos! Nós mandamos. Más no centro do quadro não estão Mestres da fé e donos da verdade, mas o verdadeiro mestre da predicação. No coração da Igreja está a existência falante dessa mulher que deu e segue dando a luz a quem realmente importa: Jesus

Ele está aí em seu amor. ∎